França rebate Trump e chama de “Fake news” sobre preços de medicamentos em Davos
Após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usar o palco do Fórum Econômico Mundial, em Davos, para exaltar o que chamou de sucesso de sua política comercial baseada em tarifas, o governo francês reagiu com firmeza a uma de suas declarações, classificando-a como “fake news”.
Durante o discurso na conferência, na Suíça, Trump percorreu uma série de temas, da segurança nacional americana ao seu interesse pela Groenlândia, e voltou a defender sua estratégia de pressão econômica contra parceiros comerciais desde que retornou à Casa Branca, em janeiro. Em meio às declarações, o presidente afirmou ter forçado o francês Emmanuel Macron a aumentar o preço de um medicamento na França, sob ameaça de impor uma tarifa de 25% sobre exportações francesas e uma taxa de 100% sobre vinhos e champanhes.
Trump chegou a dizer que Macron teria cedido rapidamente à pressão e comentou que levava, em média, “três minutos por país” para definir novos modelos de preços de medicamentos dentro de sua política de “Nação Mais Favorecida” (NMF).
A resposta veio rapidamente. O Palácio do Eliseu, residência oficial do presidente francês, negou as acusações em uma publicação na rede X. “Estão alegando que o presidente Emmanuel Macron aumentou o preço dos medicamentos. Ele não fixa os preços. Eles são regulamentados pelo sistema de seguridade social e, de fato, permaneceram estáveis”, afirmou o governo francês, acrescentando que “qualquer pessoa que já tenha entrado em uma farmácia na França sabe disso”, antes de ironizar a declaração com um GIF de Trump dizendo “fake news”.
A política de Nação Mais Favorecida defendida por Trump busca alinhar os preços pagos por medicamentos nos Estados Unidos aos valores praticados em outros países desenvolvidos. O republicano tem pressionado a indústria farmacêutica a reduzir os preços no mercado americano e, ao mesmo tempo, argumenta que as nações europeias mais ricas deveriam contribuir mais para financiar a inovação biofarmacêutica.
O debate ocorre em um momento em que o cenário de preços de medicamentos na Europa começa a ganhar mais nitidez rumo a 2026, ainda que com potenciais obstáculos no caminho. Segundo o CEO da Pfizer, Albert Bourla, oito países fora dos EUA são diretamente impactados pela política de NMF. Entre eles, o Reino Unido já fechou um acordo com Washington para ampliar seus gastos com medicamentos inovadores.
De acordo com Bourla, o novo entendimento com os britânicos reduziu a taxa de reembolso de cerca de 22% para 15%, o que representa uma mudança relevante. O executivo afirmou ainda que mantém “discussões constantes” com governos de países como França e Alemanha e avaliou que a Europa “perdeu o bonde” do investimento em biotecnologia e agora precisa correr para recuperar espaço.
Na avaliação do CEO da Pfizer, os países atingidos pela política de NMF já compreendem que, se não aceitarem pagar mais, correm o risco de não receber novos lançamentos de medicamentos. No caso específico do Reino Unido, o acordo comercial firmado com os Estados Unidos em dezembro garante isenção de tarifas de importação sobre produtos farmacêuticos e de tecnologia médica por pelo menos três anos. Em troca, o NHS se comprometeu a elevar em 25% o preço líquido pago por novos medicamentos.
Até agora, diversas gigantes do setor já assinaram acordos de NMF com a Casa Branca, entre elas AbbVie, Amgen, AstraZeneca, Bristol Myers Squibb, Eli Lilly, GSK, Johnson & Johnson, Merck, Novartis, Novo Nordisk, Pfizer, Roche/Genentech e Sanofi. A Regeneron é apontada como a próxima candidata a aderir, embora ainda não tenha fechado acordo.
Apesar disso, analistas alertam que implementar aumentos de preços na Europa pode ser mais difícil do que parece. Especialistas ouvidos pela Reuters afirmaram que negociações mais duras por parte dos governos europeus podem atrasar o lançamento de novos medicamentos no continente. “Não se pode simplesmente obrigar os europeus a gastar mais da noite para o dia”, disse Marshall Gordon, da ClearBridge Investments, observando que os acordos de NMF, na prática, ampliam o poder de barganha das farmacêuticas.
Atualmente, os países europeus pagam, em média, cerca de um terço a menos por medicamentos do que os Estados Unidos, graças à atuação de sistemas públicos de saúde que negociam preços e podem adiar compras para obter melhores condições.
Mesmo assim, algumas empresas já começam a testar estratégias de preços mais elevados. A Bristol Myers Squibb anunciou que pretende lançar seu novo medicamento para esquizofrenia, o Cobenfy, no Reino Unido com preço de tabela equivalente ao dos EUA, hoje em US$ 1.887 antes de descontos. A AbbVie, por sua vez, revelou plano semelhante para o lançamento do medicamento oncológico Elahere no mercado britânico, condicionando sua chegada ao valor que vier a ser aprovado pelas autoridades locais.
O Financial Times informou recentemente que executivos do setor avaliam, de forma reservada, adiar ou até suspender lançamentos na Europa caso as negociações de preços se tornem excessivamente difíceis.
Todo esse embate ocorre poucas semanas depois de o Parlamento Europeu ter fechado um acordo para uma ampla reforma das regras farmacêuticas do bloco, com o objetivo de reforçar a proteção de mercado, evitar escassez de medicamentos e tornar o ambiente regulatório mais atrativo para investimentos. Ainda assim, entidades como a EFPIA avaliam que as mudanças são insuficientes e defendem políticas mais agressivas para que a Europa volte a competir de forma relevante na inovação global de medicamentos e vacinas a partir de 2026.
Fonte: FiercePharma