Estudo de fase 3 consolida Padcev-Keytruda no câncer de bexiga músculo-invasivo
A combinação Padcev (enfortumabe vedotina) com Keytruda voltou a demonstrar resultados robustos, desta vez em pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo (MIBC) elegíveis para cisplatina. No entanto, apesar dos números positivos, especialistas ainda discutem como o regime deve se posicionar em um cenário terapêutico que evoluiu significativamente nos últimos anos.
Os dados vêm do estudo de fase 3 Keynote-B15 (EV-304), que mostrou que o uso perioperatório da combinação, antes e após a cirurgia de remoção da bexiga, reduziu em 47% o risco de recorrência, progressão da doença ou morte em comparação com a quimioterapia neoadjuvante padrão à base de cisplatina. Além disso, houve redução de 35% no risco de morte.
Apresentados no Simpósio de Cânceres Geniturinários da American Society of Clinical Oncology (ASCO), os resultados revelaram benefício estatisticamente significativo de sobrevida global já em análise interina. Na data de corte, 27 de outubro de 2025, 83% dos pacientes tratados com Padcev-Keytruda estavam vivos, versus 75,4% no grupo controle.
Para o investigador principal, Dr. Matthew Galsky, do Mount Sinai, os dados representam um avanço relevante. Kevin Kelly, especialista da ASCO e da Universidade Thomas Jefferson, classificou o estudo como um passo importante rumo a um possível novo padrão de tratamento.
O ensaio foi patrocinado pela Merck & Co., fabricante do Keytruda, enquanto a Pfizer e a Astellas Pharma contribuíram com o Padcev, um conjugado anticorpo-fármaco (ADC).
O desempenho positivo em pacientes elegíveis para cisplatina ocorre após o sucesso do Keynote-905 (EV-303), que sustentou a aprovação inovadora da U.S. Food and Drug Administration (FDA), em novembro de 2025, para uso da combinação em pacientes inelegíveis para cisplatina.
Apesar do entusiasmo, o contexto clínico mudou desde o início do Keynote-B15, em 2021. Hoje, o tratamento perioperatório do câncer de bexiga conta com outras opções imunoterápicas aprovadas.
Em agosto de 2021, a FDA aprovou o Opdivo, da Bristol Myers Squibb, como terapia adjuvante para pacientes com alto risco de recorrência após cirurgia. Mais recentemente, o Imfinzi, da AstraZeneca, foi aprovado como regime perioperatório para MIBC.
O estudo Niagra, que embasou a aprovação do Imfinzi, demonstrou redução de 25% no risco de morte quando combinado à quimioterapia antes da cirurgia e seguido de imunoterapia isolada no pós-operatório.
Embora Galsky tenha evitado comparações diretas entre estudos, ele destacou diferenças na magnitude de resposta patológica completa (pCR): no Keynote-B15, a taxa foi de 55,8% com Padcev-Keytruda, frente a 32,5% no controle. No Niagra, o regime com Imfinzi alcançou 33,8%, contra 25,8% no comparador.
A combinação Padcev-Keytruda elimina a necessidade de quimioterapia sistêmica, reduzindo toxicidades hematológicas como neutropenia, anemia e trombocitopenia. Por outro lado, apresentou maior incidência de eventos como reações cutâneas, diarreia e alopecia.
Outro fator que complica decisões médicas é o fato de Padcev-Keytruda já ter se consolidado como padrão de primeira linha no câncer de bexiga metastático. Isso levanta o debate sobre utilizar o regime precocemente ou reservá-lo para casos que evoluam para doença avançada.
Catherine Pietanza, vice-presidente de desenvolvimento clínico global da Merck, defende o uso precoce da melhor terapia disponível para maximizar resultados de longo prazo. Segundo ela, apenas cerca de 25% dos pacientes são diagnosticados inicialmente com doença músculo-invasiva, enquanto a maioria já apresenta doença metastática no diagnóstico.
Além disso, com resultados positivos tanto no Keynote-905 quanto no Keynote-B15, a combinação pode simplificar a prática clínica caso seja aprovada para pacientes elegíveis à cisplatina, eliminando a necessidade de decidir com base nesse critério.
Uma questão ainda sem resposta é se todos os pacientes realmente precisam de tratamento antes e depois da cirurgia. Especialistas começam a discutir estratégias de desintensificação terapêutica. Nesse contexto, o uso de DNA tumoral circulante (ctDNA) surge como ferramenta promissora para orientar decisões mais personalizadas em futuros estudos clínicos.
Assim, embora os dados reforcem o potencial da combinação como novo padrão no câncer de bexiga músculo-invasivo, o posicionamento definitivo do regime dependerá de como ele será integrado a um cenário terapêutico cada vez mais complexo e competitivo.
Fonte: FiercePharma