Escassez de quimioterápicos reacende alerta sobre a cadeia global de suprimentos farmacêutica
A escassez de medicamentos quimioterápicos genéricos essenciais voltou a preocupar oncologistas nos Estados Unidos, levantando o risco de racionamento de tratamentos em diversos centros de saúde. Fármacos como ifosfamida, cisplatina, carboplatina e oxaliplatina, fundamentais no tratamento de diferentes tipos de câncer, estão entre os mais afetados pela redução da oferta.
Segundo a FDA, a falta desses medicamentos decorre de uma combinação de problemas de fabricação, atrasos na cadeia logística e da decisão de alguns fabricantes de interromper a produção. Apesar de serem terapias consolidadas e amplamente utilizadas há décadas, esses medicamentos apresentam baixo retorno financeiro e exigem processos produtivos complexos em ambientes estéreis, o que dificulta a manutenção da oferta.
A situação já impacta diretamente a prática clínica. No caso da ifosfamida, utilizada no tratamento de sarcomas, linfomas e câncer de testículo, algumas instituições passaram a discutir quais pacientes terão prioridade para receber o medicamento diante da oferta limitada.
"Há pacientes que deixarão de receber o tratamento mais adequado para sua doença, colocando médicos, farmacêuticos, pacientes e familiares em uma situação extremamente difícil", afirmou o Dr. Andrew Shuman, cirurgião oncológico da Universidade de Michigan, ao The New York Times.
Segundo o especialista, hospitais em Michigan estão priorizando o uso dos estoques disponíveis para pacientes com maior chance de cura, estratégia que, na prática, tende a favorecer pacientes mais jovens ou com melhor prognóstico.
Os impactos também aparecem na distribuição dos medicamentos. Dados da Premier, organização responsável por compras de aproximadamente 4.200 sistemas de saúde nos EUA, mostram que apenas 38% dos pedidos de ifosfamida foram atendidos, enquanto cerca de dois terços das solicitações de cisplatina foram entregues. A cisplatina é considerada um tratamento essencial para tumores de ovário, testículo, bexiga e diversos outros tipos de câncer.
Embora o racionamento ainda não seja generalizado, hospitais e clínicas já vêm adotando medidas para preservar os estoques, como espaçar aplicações e organizar infusões consecutivas para evitar desperdícios.
"Tem sido extremamente difícil garantir o fornecimento de carboplatina, cisplatina e oxaliplatina", afirmou o Dr. Lucio Gordan, presidente do Florida Cancer Specialists and Research Institute. Segundo ele, esses três medicamentos continuam sendo a base de inúmeros esquemas terapêuticos em oncologia.
O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS) informou que a FDA trabalha para reduzir os impactos da escassez e avalia autorizações temporárias para importação de medicamentos produzidos por empresas que normalmente não abastecem o mercado norte-americano.
A agência também informou que atua em conjunto com os fabricantes sempre que um medicamento entra em sua lista oficial de escassez, buscando acelerar soluções para restabelecer o abastecimento.
Entre os fatores que agravaram o cenário está a interrupção da produção de ifosfamida pela Baxter. A companhia depende de uma fábrica terceirizada na Alemanha, que recebeu uma carta de advertência da FDA após inspeções identificarem problemas de esterilidade, incluindo contaminação bacteriana na área de envase. A empresa estima retomar o fornecimento do medicamento apenas em outubro.
Há, porém, alguns sinais de melhora. A Mark Cuban Cost Plus Drug Company iniciou recentemente a fabricação de carboplatina e metotrexato em sua unidade no Texas, buscando ampliar a disponibilidade desses medicamentos no mercado americano.
Ainda assim, especialistas alertam que a escassez poderá continuar se não forem enfrentadas as causas estruturais do problema. Segundo Andrew Shuman, episódios semelhantes já ocorreram há três anos com carboplatina e cisplatina, sem que mudanças significativas tenham sido implementadas.
Fonte: Medical Xpress