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Empresas de biotecnologia criam aliança para enfrentar proposta de Trump de impor a Nação Mais Favorecida (NMF)

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Diante do que classificam como uma ameaça direta à sua sustentabilidade financeira, dez empresas americanas de biotecnologia anunciaram a criação da Midsized Biotech Alliance of America (MBAA). A nova coalizão nasce com um objetivo claro: contestar a política de preços da Nação Mais Favorecida (NMF), implementada pelo presidente Donald Trump.

Entre os integrantes da aliança estão companhias como Acadia Pharmaceuticals, Madrigal Pharmaceuticals e Travere Therapeutics, além de Alkermes, Alnylam Pharmaceuticals, Ardelyx, BioMarin Pharmaceutical, Exelixis, Incyte e Neurocrine Biosciences.

A política da NMF, instituída por decreto em maio de 2025, busca equiparar os preços de medicamentos nos Estados Unidos aos valores mais baixos praticados em países comparáveis. Até agora, mais de uma dezena de grandes farmacêuticas firmaram compromissos com o governo, muitas vezes obtendo proteção contra eventuais tarifas de importação. Enquanto gigantes do setor absorvem o impacto com relativa tranquilidade, empresas de médio porte afirmam que a medida pode comprometer sua sobrevivência.

Segundo Alanna Temme, porta-voz da MBAA e fundadora da LMH Solutions, o modelo ameaça diretamente a capacidade de inovação. “A MFN poderia eliminar essas empresas do mapa”, afirmou. De acordo com ela, companhias de médio porte normalmente concentram esforços em áreas de alta necessidade médica não atendida, dependem fortemente de capital de risco e, em geral, contam com um portfólio limitado, muitas vezes apenas um produto comercializado, o que reduz sua margem de manobra diante de cortes de preços.

A nova aliança reúne empresas que já passaram por longos ciclos de pesquisa e desenvolvimento e conseguiram levar terapias ao mercado, mas que não dispõem da diversificação típica das grandes farmacêuticas. Juntas, elas investem cerca de US$ 7 bilhões anuais em P&D nos Estados Unidos, empregam aproximadamente 12 mil pessoas, lançaram 30 terapias e mantêm quase 100 projetos em desenvolvimento.

O desafio financeiro, porém, é significativo. Segundo a MBAA, o tempo médio para que seus membros alcancem lucratividade chega a 25 anos, considerando custos elevados de pesquisa, ensaios clínicos multifásicos, expansão de produção e conquista de mercado.

Temme argumenta que o impacto da NMF tende a ser mais severo para empresas de médio porte do que para startups ou grandes farmacêuticas. Startups ainda estão distantes da fase de comercialização, enquanto grandes grupos podem compensar perdas em um produto com ganhos em outros. Já as companhias intermediárias não dispõem dessa flexibilidade.

A MBAA pretende preencher um espaço de representação que, segundo seus membros, não é totalmente coberto por entidades como a PhRMA, que representa principalmente grandes farmacêuticas, ou a BIO, que atua de forma ampla no setor. A meta é dialogar com formuladores de políticas públicas, defender soluções de mercado e alertar para os riscos da política atual.

A coalizão também ecoa críticas de outros grupos do setor que afirmam que a NMF pode reduzir o acesso a novas terapias e enfraquecer a competitividade global dos EUA, especialmente frente ao avanço da China e às iniciativas europeias para fortalecer seus ecossistemas de inovação.

Apesar de analistas considerarem que a política ainda enfrenta incertezas jurídicas e pode ter aplicação limitada, empresas de biotecnologia relatam cautela crescente em acordos internacionais, receosas de impactos indiretos da regra de preços.

Para a MBAA, preservar a saúde financeira das empresas de médio porte é essencial para manter a liderança americana em inovação biomédica. “Essas companhias são o coração da inovação nos EUA”, afirma Temme, defendendo que a sustentabilidade do setor depende da proteção desse segmento intermediário.

Fonte: FierceBiotech