CAR-T avança contra tumores sólidos, mas entraves regulatórios freiam expansão da terapia
Uma nova geração de terapia celular demonstrou eliminar três tipos distintos de tumores sólidos em modelos animais, representando um avanço relevante em uma área onde as células CAR-T historicamente enfrentam limitações. Apesar do progresso científico, especialistas alertam que entraves regulatórios continuam desacelerando a evolução dessa classe terapêutica nos Estados Unidos.
Os resultados foram publicados em 26 de fevereiro na revista Science e são fruto do laboratório de Michel Sadelain, da Universidade Columbia, um dos pioneiros no desenvolvimento da terapia CAR-T.
Desde o primeiro sucesso clínico contra leucemia, em 2010, a tecnologia que consiste na coleta de células T do paciente, sua modificação genética em laboratório e posterior reinfusão para atacar o câncer, consolidou-se no tratamento de tumores hematológicos. No entanto, sua aplicação em tumores sólidos tem sido desafiadora, tanto por barreiras biológicas quanto por exigências regulatórias.
A estratégia desenvolvida pela equipe de Sadelain concentra-se no CD70, uma proteína presente em níveis extremamente baixos em diversas células tumorais e que, por muito tempo, foi considerada um alvo pouco viável. Em experimentos com tumores humanos de rim, pâncreas e ovário transplantados em camundongos, a nova abordagem conseguiu erradicar as massas tumorais.
O avanço ajuda a contornar um dos principais obstáculos da CAR-T em tumores sólidos: a ausência de um antígeno amplamente compartilhado entre as células cancerígenas. Ainda assim, permanecem desafios como o microambiente tumoral hostil, que dificulta a infiltração e a sobrevivência das células T.
Para tornar o reconhecimento do CD70 possível, os pesquisadores recorreram à tecnologia CRISPR e criaram receptores de células T mais sensíveis do que os CARs tradicionais. A modificação permitiu que as células detectassem níveis até 10 a 50 vezes menores da proteína-alvo.
Diferentemente dos receptores convencionais, que dependem da apresentação do antígeno via HLA, altamente variável entre indivíduos, a nova plataforma desenvolveu receptores independentes de HLA, chamados HITs (HLA-independent T cell receptors). Essa inovação amplia o espectro de alvos possíveis e pode aumentar a aplicabilidade clínica futura.
Além dos desafios científicos, especialistas como Carl June, da Universidade da Pensilvânia, apontam que o ambiente regulatório americano dificulta o avanço rápido dessas inovações. Segundo ele, a Food and Drug Administration (FDA) exige que cada modificação na engenharia celular seja testada separadamente em ensaios clínicos, o que encarece e prolonga o desenvolvimento.
June já havia levantado essa preocupação em uma mesa-redonda da FDA em 2025, com a participação do secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., quando representantes do governo sinalizaram abertura para revisar regulações consideradas excessivamente burocráticas.
Outro ponto crítico é o padrão de fabricação exigido nos EUA, considerado mais rigoroso e mais caro do que em países como China e Austrália. Para Sadelain, flexibilizações controladas nas fases iniciais poderiam reduzir custos sem comprometer a segurança.
Enquanto o debate regulatório avança, o setor continua investindo. A Allogene Therapeutics já conduz estudo de fase 1 com uma CAR-T anti-CD70 para carcinoma de células renais. A Kite Pharma, da Gilead Sciences, testa abordagens de alvo duplo após adquirir a Tmunity. Já AstraZeneca e Johnson & Johnson também desenvolvem programas CAR-T para tumores sólidos, incluindo câncer de próstata.
Apesar das barreiras, pesquisadores mantêm otimismo. Para eles, a compreensão crescente da biologia tumoral e os avanços em engenharia celular indicam que a expansão da CAR-T para tumores sólidos é uma questão de tempo, desde que os caminhos regulatórios acompanhem a velocidade da ciência.
Fonte: FierceBiotech