Kyprolis segue relevante no tratamento do mieloma múltiplo, mas enfrenta pressão de genéricos
O Kyprolis (carfilzomibe), inibidor de proteassoma desenvolvido pela Amgen para o tratamento do mieloma múltiplo, continua sendo amplamente investigado em ensaios clínicos internacionais, apesar de enfrentar crescente pressão competitiva com a chegada de versões genéricas em alguns mercados. O medicamento permanece como uma das principais opções terapêuticas para pacientes com doença recidivante ou refratária, cenário em que as alternativas terapêuticas ainda são limitadas.
Atualmente, dois estudos clínicos de fase IV estão em andamento avaliando o uso do carfilzomibe, enquanto aproximadamente 59 ensaios clínicos ativos investigam o fármaco em diferentes contextos terapêuticos. A maior parte desses estudos se concentra nas fases I a III e envolve doenças hematológicas como mieloma múltiplo, plasmocitoma e linfoma difuso de grandes células B (DLBCL).
Grande parte dessas pesquisas avalia o carfilzomibe em pacientes com mieloma múltiplo recidivante ou refratário, população que frequentemente apresenta resposta limitada às linhas terapêuticas anteriores. Além dos estudos que analisam ajustes de dose e frequência de administração, diversos ensaios clínicos estão explorando novas combinações terapêuticas.
Entre as estratégias investigadas estão associações com anticorpos monoclonais como daratumumabe (anti-CD38) e isatuximabe, além de esquemas que incluem ou substituem agentes imunomoduladores. O objetivo dessas abordagens é maximizar a eficácia do tratamento em populações altamente pré-tratadas e em pacientes com doença mais agressiva.
Esse conjunto de pesquisas reforça o papel do carfilzomibe como um componente importante nas estratégias terapêuticas para mieloma múltiplo, contribuindo para a ampliação do entendimento sobre seu perfil de eficácia e segurança em diferentes perfis de pacientes.
Mieloma múltiplo segue em crescimento global
O mieloma múltiplo é atualmente a segunda neoplasia hematológica mais comum no mundo, representando cerca de 10% de todos os cânceres do sangue e aproximadamente 1% de todas as neoplasias malignas em países ocidentais. A doença ocorre predominantemente em adultos mais velhos, com idade média ao diagnóstico entre 65 e 69 anos, sendo mais frequente em indivíduos acima de 60 anos.
Em 2022, estimativas globais indicaram aproximadamente 188 mil novos casos de mieloma múltiplo e cerca de 121 mil mortes associadas à doença. A distribuição geográfica dos casos apresenta variações relevantes, com maior concentração na América do Norte e no Leste Asiático, regiões que respondem cada uma por cerca de um quinto dos casos globais.
Nas últimas décadas, a incidência da doença apresentou crescimento expressivo. Entre 1990 e 2016, o número de casos aumentou cerca de 126% globalmente, impulsionado principalmente pelo envelhecimento da população e pela ampliação da capacidade de diagnóstico em diferentes regiões do mundo.
No Brasil, o mieloma múltiplo representa cerca de 1% de todos os casos de câncer e aproximadamente 10% das neoplasias hematológicas. Estima-se que mais de 7 mil novos casos sejam diagnosticados anualmente no país. Entre 2018 e 2021, foram registrados cerca de 13,5 mil óbitos associados à doença, com maior concentração de casos em estados como São Paulo, Minas Gerais e Bahia.
O impacto da doença também se reflete na utilização crescente de recursos do sistema de saúde. Entre 2018 e 2022, foram realizados mais de 319 mil procedimentos relacionados ao tratamento do mieloma múltiplo no Brasil, com custos acumulados superiores a R$ 209 milhões. O ano de 2022 registrou o maior número de procedimentos da série histórica, com aproximadamente 69,8 mil atendimentos.
Especialistas apontam que a incidência e a mortalidade associadas ao mieloma múltiplo devem continuar aumentando nas próximas décadas, acompanhando o envelhecimento populacional global. Projeções indicam que, se as tendências atuais se mantiverem, o número de casos e mortes pela doença poderá crescer significativamente até 2045.
Produção baseada em síntese química avançada
Do ponto de vista produtivo, o carfilzomibe é um fármaco sintético derivado do epoxomicino, um inibidor natural do proteassoma. Sua produção envolve múltiplas etapas de síntese química para gerar o peptídeo epoxiquetona ativo, responsável por bloquear de forma seletiva a atividade do proteassoma nas células tumorais.
O processo utiliza matérias-primas como aminoácidos protegidos e reagentes orgânicos específicos empregados na síntese peptídica, resultando no composto final com elevado grau de pureza farmacêutica. A ação do medicamento interfere no mecanismo de degradação proteica das células tumorais, levando à apoptose celular e contribuindo para o controle da progressão da doença.
Chegada de genérico no Brasil pressiona mercado do medicamento
Apesar de seu papel consolidado no tratamento do mieloma múltiplo, o Kyprolis vem enfrentando desafios comerciais. A Amgen reportou que as vendas do medicamento caíram 5% no terceiro trimestre, totalizando US$ 359 milhões, impactadas principalmente pela redução de volume em alguns mercados.
No Brasil, o cenário competitivo ganhou um novo capítulo com a disponibilização de uma versão genérica do carfilzomibe. O medicamento, fabricado pela empresa Natcofarma e aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), passou a ser comercializado no país a partir de setembro, tornando o Brasil o primeiro mercado no mundo a disponibilizar o genérico para tratamento do mieloma múltiplo.
Embora o carfilzomibe genérico já tivesse sido aprovado pela FDA em 2021, sua introdução no sistema brasileiro representa um marco regulatório e comercial importante. O produto chega ao mercado com preço aproximadamente 35% inferior ao medicamento de referência, o que tende a acelerar a perda de participação de mercado do Kyprolis no país.
Diante desse cenário, especialistas avaliam que a expansão da concorrência pode abrir espaço para novas negociações comerciais e ajustes de preço do medicamento original, ao mesmo tempo em que amplia o acesso ao tratamento para pacientes com mieloma múltiplo.
Fonte: GlobalMedReport