Dependência da China em inovação farmacêutica gera pressão política nos EUA
A crescente dependência da indústria farmacêutica dos EUA em relação à inovação biotecnológica chinesa vem intensificando o debate político em Washington sobre possíveis restrições a acordos de licenciamento e investimentos no setor. A discussão ganhou força após especialistas e parlamentares defenderem a inclusão da biotecnologia na Lei COINS, legislação americana voltada ao controle de investimentos externos em áreas consideradas estratégicas.
A pesquisadora Olivia Kosloff, do American Economic Liberties Project, afirmou que grandes farmacêuticas norte-americanas estariam priorizando ganhos de curto prazo ao buscar ativos promissores na China, em vez de fortalecer o ecossistema biotecnológico doméstico. Em artigo publicado na imprensa especializada, ela argumentou que o movimento pode comprometer a competitividade da biotecnologia dos EUA no longo prazo.
A proposta de Kosloff é ampliar o alcance da Lei COINS, criada para monitorar investimentos americanos em setores sensíveis como inteligência artificial, semicondutores e computação quântica, para incluir também a biotecnologia. O objetivo seria dificultar acordos envolvendo ativos chineses e estimular investimentos em inovação local.
O tema já mobiliza parlamentares republicanos. Em fevereiro, membros da Câmara dos Representantes enviaram carta ao secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, pedindo que a biotecnologia fosse incorporada às regras da legislação. O deputado John Moolenaar, presidente da comissão especial da Câmara sobre a China, reforçou o pedido em uma nova carta enviada em maio.
Especialistas do setor avaliam que a eventual ampliação da lei poderia afetar especialmente modelos de negócios conhecidos como “NewCo”, nos quais investidores americanos criam startups nos EUA baseadas em ativos licenciados da China. Nesse formato, empresas chinesas frequentemente mantêm participação acionária minoritária e se beneficiam do crescimento futuro da companhia.
Segundo Laurie Burlingame, advogada especializada em transações de ciências da vida, as regras atuais da Lei COINS talvez não alcancem acordos tradicionais de licenciamento, mas joint ventures e modelos híbridos podem acabar sujeitos a maior escrutínio regulatório caso o Tesouro amplie o escopo da legislação.
O debate ocorre em meio ao rápido crescimento da biotecnologia chinesa. Dados recentes apontam aumento expressivo dos acordos de licenciamento envolvendo empresas chinesas, com contratos somando mais de US$ 137 bilhões em 2025. Além disso, investidores americanos têm recorrido à China em busca de ativos em estágio inicial, atraídos por custos mais baixos e desenvolvimento clínico mais rápido.
Apesar das pressões políticas, parte da indústria biofarmacêutica americana se posiciona contra restrições mais severas. O ex-CEO da Alnylam, John Maraganore, defendeu que os EUA deveriam fortalecer sua própria competitividade em vez de limitar parcerias internacionais. Entre as medidas sugeridas por ele estão maior investimento em pesquisa, redução de barreiras regulatórias e fortalecimento da infraestrutura de ensaios clínicos nos EUA.
O CEO da BIO, John Crowley, também afirmou recentemente que impedir o avanço da China seria “uma missão impossível”, defendendo que o foco americano deve estar em acelerar sua própria capacidade de inovação.
Já defensores de restrições argumentam que o atual cenário pode enfraquecer o ecossistema biotecnológico dos EUA e criar dependência estratégica semelhante à observada em setores como o de minerais críticos. Para esses grupos, a expansão da Lei COINS seria uma forma de proteger a liderança americana em inovação biomédica.
O Departamento do Tesouro deverá publicar até março de 2027 as regras finais de implementação da Lei COINS. Até lá, o setor biofarmacêutico acompanha de perto as discussões sobre o futuro das parcerias entre empresas americanas e chinesas no desenvolvimento de novas terapias.
Fonte: FierceBiotech