Pressão por preços menores nos EUA cria efeito sobre acesso a medicamentos na Suíça
Farmacêuticas estão adiando ou deixando de solicitar o reembolso de novos medicamentos na Suíça diante do receio de que preços mais baixos no país possam afetar suas negociações no mercado americano, em meio à política de preços de medicamentos adotada pelo governo de Donald Trump.
O alerta consta de um estudo divulgado pela Interpharma, associação que reúne empresas farmacêuticas na Suíça. Segundo a entidade, cerca de um terço dos novos medicamentos inovadores lançados no país entre janeiro de 2025 e junho de 2026 não foi submetido para inclusão na lista de reembolso do sistema obrigatório de seguro de saúde.
Dos 22 novos medicamentos inovadores lançados no período analisado, sete não foram apresentados para inclusão na lista de reembolso, que determina quais tratamentos são cobertos pelo seguro obrigatório e estabelece os preços de reembolso. Outros três medicamentos sequer foram submetidos para aprovação no mercado suíço.
A Interpharma atribui parte desse movimento à política de “nação mais favorecida” dos Estados Unidos, que busca reduzir os preços de medicamentos americanos tomando como referência os valores praticados em outros países desenvolvidos, incluindo a Suíça.
Como os preços definidos para reembolso no país podem servir de referência em negociações internacionais, as farmacêuticas temem que a entrada de novos medicamentos na Suíça por valores mais baixos pressione os preços que conseguem praticar nos Estados Unidos.
Segundo a entidade, apenas 15 dos 22 medicamentos inovadores lançados no período foram submetidos para reembolso. O número representa uma queda significativa em relação à média de 24 submissões observada nos períodos equivalentes entre 2019 e 2025.
A preocupação também pode afetar o calendário de lançamento de novos tratamentos na Europa. Algumas farmacêuticas já passaram a avaliar com maior cautela a introdução de medicamentos em mercados europeus devido ao risco de que os preços praticados nesses países sejam utilizados como referência nas negociações americanas.
Embora empresas suíças como Roche e Novartis continuem lançando medicamentos no país, a inclusão na lista de reembolso é considerada fundamental para ampliar o acesso dos pacientes, além de estabelecer um preço oficial que pode ser utilizado em comparações internacionais.
A Interpharma alerta que a situação pode ampliar uma tendência já observada no acesso a medicamentos inovadores na Suíça. De acordo com a entidade, os pacientes do país já enfrentam restrições para obter novos tratamentos por meio do seguro de saúde obrigatório, e as políticas de preços adotadas pelos Estados Unidos podem intensificar esse problema.
O cenário evidencia um possível efeito indireto da política de preços americana: ao tentar reduzir os valores dos medicamentos nos Estados Unidos, o governo pode incentivar farmacêuticas a adiar lançamentos ou evitar a submissão de novos tratamentos em outros mercados, especialmente aqueles utilizados como referência internacional de preços.
Fonte: Reuters