FDA aprova Etcamah, da AstraZeneca, e inaugura novo paradigma no tratamento do câncer de mama guiado por biomarcadores
Em uma decisão que contrariou a recomendação de seu próprio comitê consultivo, o FDA concedeu aprovação acelerada ao camizestrant, da AstraZeneca, que será comercializado sob a marca Etcamah. A autorização representa um marco para a oncologia ao validar uma nova estratégia terapêutica baseada na detecção precoce de alterações moleculares antes da progressão clínica da doença.
O Etcamah foi aprovado em combinação com um inibidor de CDK4/6 para pacientes com câncer de mama HR-positivo e HER2-negativo que desenvolvem mutações no gene ESR1 durante o tratamento inicial com inibidor de aromatase associado a um inibidor de CDK4/6. A decisão abre caminho para intervenções terapêuticas mais precoces, guiadas pela identificação de biomarcadores por meio de biópsia líquida.
A aprovação ocorre após um processo regulatório conturbado. O medicamento enfrentou questionamentos da própria FDA e recebeu avaliação desfavorável de um comitê consultivo, que levantou preocupações sobre o desenho do estudo principal que sustentava o pedido regulatório. Apesar disso, a agência optou por conceder a aprovação acelerada, em uma decisão considerada surpreendente pelo mercado.
O aval do FDA foi fundamentado nos resultados do estudo de fase 3 SERENA-6, que avaliou pacientes com câncer de mama HR+/HER2- sem progressão detectável por exames de imagem, mas que apresentavam surgimento da mutação ESR1 identificado por análise de DNA tumoral circulante (ctDNA).
Os resultados demonstraram benefício clínico relevante para os pacientes que trocaram o tratamento padrão pelo regime contendo Etcamah. O estudo mostrou redução de 56% no risco de progressão da doença ou morte em comparação aos pacientes que permaneceram na terapia inicial. A mediana de sobrevida livre de progressão alcançou 16 meses no grupo tratado com Etcamah, frente a 9,2 meses no grupo controle.
Além disso, a estratégia também reduziu em 23% o risco de progressão subsequente da doença ou morte após o início da terapia seguinte. Embora os dados de sobrevida global ainda não estejam maduros, as análises preliminares indicaram uma tendência favorável para o tratamento da AstraZeneca.
A proposta da companhia chamou atenção por introduzir um conceito inédito na prática clínica. Em vez de aguardar a progressão radiográfica do tumor para alterar a terapia, o tratamento é modificado assim que a mutação ESR1 é detectada no ctDNA, antecipando o combate à resistência endócrina.
Justamente por isso, a FDA inicialmente demonstrou cautela. A agência questionou se o estudo havia comparado adequadamente a nova abordagem com a prática clínica padrão, uma vez que os pacientes do grupo controle não tiveram amplo acesso a outros degradadores seletivos de receptores de estrogênio (SERDs) orais já utilizados em segunda linha. Apenas 14% dos pacientes do grupo comparador receberam posteriormente um SERD oral.
Durante reunião realizada em abril, a maioria dos especialistas do comitê consultivo acompanhou as preocupações da FDA. Embora reconhecessem o caráter inovador da estratégia, os integrantes do painel consideraram que o desenho do estudo poderia limitar a interpretação dos resultados.
Após as discussões, a AstraZeneca apresentou análises complementares solicitadas pela agência. Os dados mostraram que os níveis totais de ctDNA foram reduzidos em 99% após oito semanas de tratamento com Etcamah, enquanto aumentaram 64% no grupo controle. Análises exploratórias também sugeriram associação entre a redução do ctDNA e melhora de 61% na sobrevida global.
Após prorrogar o prazo de revisão, o FDA concluiu que os benefícios observados justificavam a aprovação acelerada. Como condição para a manutenção da autorização, a AstraZeneca deverá fornecer evidências confirmatórias adicionais. Entre os estudos em andamento está o SERENA-4, que avalia o medicamento como terapia inicial e deve divulgar resultados ainda este ano.
Segundo a AstraZeneca, cerca de 37 mil pacientes com câncer de mama metastático HR-positivo são tratados anualmente nos Estados Unidos com terapias endócrinas associadas a inibidores de CDK4/6. Aproximadamente 30% desses pacientes podem desenvolver mutações ESR1 durante o tratamento, favorecendo o surgimento de resistência terapêutica antes mesmo da progressão da doença.
Para Kevin Kalinsky, investigador do estudo SERENA-6 e professor da Universidade Emory, a aprovação permitirá uma intervenção mais precoce em pacientes que começam a apresentar sinais moleculares de resistência ao tratamento.
A AstraZeneca estima que o Etcamah possa ultrapassar US$ 5 bilhões em vendas anuais no pico. Embora a indicação atualmente aprovada represente apenas parte desse potencial, analistas acreditam que a maior oportunidade comercial está nas futuras aplicações do medicamento em estágios mais precoces do câncer de mama.
No mercado, o Etcamah enfrentará concorrência de outros SERDs orais em desenvolvimento ou já comercializados, incluindo Orserdu, do Grupo Menarini, Inluriyo, da Eli Lilly, e giredestrant, da Roche. Ainda assim, a decisão do FDA posiciona a AstraZeneca como pioneira na validação de um modelo de tratamento baseado na detecção precoce de alterações moleculares por biópsia líquida, criando um novo paradigma para o manejo do câncer de mama avançado.
Fonte: FiercePharma